domingo, 8 de abril de 2012

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Um abraço a todos!

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Porque eu gosto da "igreja universal"!


Século XXI, época de inovações tecnológicas e de constantes avanços no âmbito do conhecimento. Período de amplo desenvolvimento industrial e de estudos que procuram explicar, passo a passo, o galgar gradativo do homem sobre a Terra. Geômetras, filósofos, teólogos, lingüistas, antropólogos, físicos, biólogos, gente de toda sorte em busca de respostas iminentes para os problemas universais. Ao mesmo tempo, há os que buscam saídas insólitas e desprovidas de quaisquer atributos de seriedade e decência para as dificuldades inerentes ao homem contemporâneo – a mim e a você, caro leitor! E por essa razão transformam-se em verdadeiros “gurus”, detentores de “fórmulas mágicas”, supostamente capazes de solucionar as maiores intempéries humanas.

Bell, em 1876, cria o primeiro telefone de que se tem notícia; Edson, que ao longo da vida registrou 1033 patentes, criou, pelos idos de 1879, aquela que se tornaria sua mais popular descoberta, a lâmpada elétrica; Dumont, depois de muitas tentativas, conseguiu, no início do século passado, decolar com seu 14 Bis, e é considerado por boa parte da comunidade científica internacional o inventor do avião. Como eles, é grande o número dos que ainda hoje se detêm em experiências científicas, estando sempre à procura de algo, sob o impulso da inspiração, banhada pela transpiração do laborioso e digno ofício.

Infelizmente, na passagem diacrônica dos séculos, sempre houve aqueles que pretenderam burlar o bom senso acadêmico e deturpar a razão com subterfúgios insustentáveis. Para esses insensatos, não há, geralmente, compromisso com a verdade ou com a lisura dos fatos. O mundo religioso que o diga.
Os povos pré-cristãos já conviviam com a figura dos charlatões, que exploravam a fé ingênua do povo, vendendo poções mágicas e miraculosos elixires. Também nessa linha, velhos filmes de faroeste comumente mostram protótipos desses espertalhões anunciando garrafadas, que são verdadeiras panacéias para todos os males do corpo e, às vezes, também da alma. O próprio Jesus convidou a ter especial atenção com os “falsos profetas”.

Mas o que ultimamente tem chamado minha atenção, de fato, é a criatividade e a ousadia sem limites de algumas seitas cristãs ditas neo-pentecostais, como é o caso da igreja universal do reino de Deus, criada no final dos anos 70 pelo Pastor Edir Macedo – que se autonomeou bispo.
Embora não mais estejamos no período neolítico, em diversos momentos, parece que o tempo retrocedeu e nos mandou de volta a um passado do qual não são boas as lembranças. Não obstante a presença de filósofos e pensadores de diversas linhas teóricas, ou de profetas e sábios guardiões dos ensinamentos divinos, os primeiros séculos revelam-se repletos de casos de comportamentos primitivistas, calcados em deturpações morais e sociais, muitas vezes geradas pela falta de letramento e visão de mundo da população.

É para esse contexto arcaico da vida humana que me sinto enviado quando me deparo com os programas televisivos da igreja universal. Em um misto de humor e indignação, assisto, perplexo, ao caos religioso para o qual a sociedade moderna vai se encaminhando. Há um bom tempo, as reflexões deixaram de ser evangélicas ou catequéticas e passaram a visar unicamente ao enriquecimento mágico e alucinante – “sinal de bênção”. Os recursos pecuniários tomam a cena e os versículos bíblicos vêm, com velocidade assombrosa, perdendo espaço para os cifrões. É a santa, fraterna e salvífica pobreza cristã sendo engolida pela voraz idéia de prosperidade a todo custo.

Por falar nisso, vale a pena entender de que se trata essa tal de teologia da prosperidade, mola mestra nas falas dos discípulos do bispo Macedo. Trata-se de uma substituição do Evangelho da Graça, pelo “evangelho” da ganância. Oral Roberts, um dos principais pregadores dessa heresia, chegou a escrever um livro intitulado How i learned Jesus Was Not Poor (“Como aprendi que Jesus não foi pobre”). É comum ouvirmos da boca dos pregadores da prosperidade frases do tipo: “Você é filho do Rei, não tem por que levar uma vida derrotada.” A princípio, uma frase dessas pode até parecer justa, mas o que muitos talvez não saibam é que, para esses pregadores, “vida derrotada” = ser pobre, ter dificuldades financeiras, ficar doente etc. Dias atrás, ouvi apresentadores macedianos afirmarem que o apóstolo Paulo jamais esteve doente. Pensei: será que eles se basearam em alguma passagem das cartas escritas pelo apóstolo? Quem sabe no seguinte trecho:

“E vós sabeis que vos preguei o evangelho a primeira vez por causa de uma enfermidade física. E, posto que a minha enfermidade na carne vos foi uma tentação, contudo, não me revelastes desprezo nem desgosto; antes, me recebestes como anjo de Deus, como o próprio Cristo Jesus”.(Gal.4.13,14).

É, acho que não!

São estes, portanto, os princípios norteadores da teologia da prosperidade: a riqueza, a saúde intocável, a juventude eterna, o luxo a qualquer custo, qualquer mesmo! Daí atraírem tantos adeptos. O povo, na verdade, muitas vezes carente e abalado emocionalmente, desistiu de sonhar com Jesus, de caminhar com Ele; vale o que vier primeiro: o que primeiro oferecer uma rosa santa, um cajado iluminado, uma tocha milagrosa, uma pulseira do poder, um sabonete para lavar todos os males e “descarregar encostos” – seja lá o que for isso – ou qualquer outra bugiganga dessas da igreja universal.

Mas, enfim, por que acabei gostando deles? Por reconhecer, caro leitor, que eles já não se envergonham mais de desprezar a Cruz de Cristo. São pessoas honestas em suas propostas, que as anunciam bem claramente em canais abertos de rádio e tevê para quem quiser ver e ouvir, como eu. Não se acanham diante da cretinice explícita e desenfreada. É bonito ver como ainda existem pessoas de coragem, prontas a defenderem seus ideais (sobretudo quando rendem milhões).

Se já gostava, passei a gostar ainda mais quando descobri que também faço parte da grande nação dos 318, tão propagada pelos queridos amigos. É que um colega observou que a placa do meu carro é 0318. Que bom! Também sou da nação dos abençoados!

Deus nos salve!

quarta-feira, 19 de março de 2008

A noite será luz para o meu dia!
Eduardo Sampaio*


O tempo passa. A vida passa. Mudam os sonhos. Renova-se a esperança. Por mais definitivas que se apresentem as realidades, a dinâmica do existir sempre arma peças capazes de surpreender; mesmo aqueles mais resistentes às transformações vêem-se, em muitos casos, obrigados a admitir a presença do novo. É inegável, porém, que a passagem de antigos a novos paradigmas geralmente cause incômodo e estranheza. Afinal, embora chamados, nem todos se revelam, de fato, preparados para enfrentar o esplendor da verdade, que sobrepõe às trevas da limitação humana a luz da incomensurável sabedoria divina. Para muitos, a noite ainda é longa, árdua, desesperadora... No entanto, escondida por entre as sombras fugazes da existência, conserva-se uma chama viva, capaz de restabelecer o ânimo e fortalecer os passos.

A passagem dos tempos é algo notado por astrônomos, poetas, filósofos e por toda uma gama de estudiosos ao longo da história. Heráclito (séculos VI e V a.C.), filósofo grego inserido no contexto pré-socrático, parte do princípio de que tudo é movimento, nada pode permanecer estático. Diz-se que esse pensador fora o primeiro a problematizar o fluir das coisas naturais. Para ele, tudo se desenvolve em constante alteração; a própria vida humana se renova com ordenada freqüência sem, com isso, deixar de ser a mesma (de fato, a Biologia veio a descobrir, muito mais tarde, a constante renovação celular). Ainda para esse pensador de Éfeso, o jogo dos fatos contrários – noite e dia, luz e trevas, frio e calor etc. – gera tudo o que se conhece. Nessa visão, Deus (deus) seria nada mais que o suprassumo efeito desse processo. Nascesse Heráclito seis séculos depois e, talvez, fosse interpelado por uma luz capaz de reluzir na madrugada e resplandecer ad eternum.

Em A República, o filósofo Platão (séculos V e IV a.C.) descreve, por meio de um conhecido diálogo entre Sócrates e Glauco, inspirador da chamada “Alegoria da caverna”, a estória de habitantes cativos em um espaço lúgubre, no qual as únicas imagens possíveis advinham de sombras refletidas nas paredes de uma caverna. Nessa representação metafórica, um dos cativos consegue livrar-se das correntes que o prendiam e deparar-se com a claridade externa ao lugar asqueroso em que sempre viveu. Por não ser acostumado à tão intensa luminosidade, demora a compreender as novas formas. Em um misto de encanto e perplexidade, volta ao lugar de origem e descreve o que vira aos seus semelhantes. Tido como louco, acaba assassinado pelos que nunca puderam vislumbrar qualquer horizonte. Antiga, conquanto não ultrapassada, essa alegoria continua atual; seus fundamentos transcendem a imaginação platônica e alicerçam o discurso de boa parte da “sociedade moderna”.

Ainda no tocante às reflexões sobre o efêmero e o eterno, a poetisa Cecília Meireles (1901-1964) é, na literatura brasileira, uma fortíssima referência. Essa escritora, marcada por perdas familiares no início da infância, compõe uma série de poemas que retratam a fugacidade da vida. Em Retrato, um de seus mais conhecidos textos, pergunta perplexa: “Em que espelho ficou perdida a minha face?”, problematizando o súbito passar do tempo. Assim como no âmbito poético, o mundo concreto também se indaga sobre as constantes transformações por que passa. Geralmente, quando não se encontra resposta objetiva, mesmo sendo os questionamentos altamente subjetivos, tende-se à descrença absoluta: há, desse modo, o tenebroso retorno à “caverna”.

Na contramão dessa postura, a Páscoa cristã concede à humanidade embotada o direto de voltar a enxergar. Quando o tétrico cenário parece definitivamente consumado, eis que surge o limiar da esperança: ao descer à mansão dos obscuros, Cristo os convoca a reintegrar-se ao reinado dos justos. Nesse ínterim, por sua vez, há que se ressaltar a figura sobre a qual recaem todas as angústias, todos os sofrimentos e sonhos da Igreja: Maria, a Virgem de Nazaré. No sábado anterior à maior dentre as noites, ela não é apenas a mãe das dores, prefiguração das sofredoras do mundo; é, sobretudo, o símbolo maior dos que confiam na intervenção do Alto. Na fé de Maria, a Igreja vê o argumento das trevas perder a força e o triunfo do Ressuscitado despontar no horizonte. Com ela, canta a Mãe Igreja, proclamando a grande verdade:

“Exulte o céu, e os anjos triunfantes,
mensageiros de Deus, desçam cantando;
façam soar trombetas fulgurantes,
a vitória de um Rei anunciando!

Só tu noite feliz, soubeste a hora
em que o Cristo da morte ressurgia;
e é por isso que de ti foi escrito:
A noite será luz para o meu dia!”

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* É lingüista e professor de Língua Portuguesa.
eduardoredacao@gmail.com