quarta-feira, 19 de março de 2008

A noite será luz para o meu dia!
Eduardo Sampaio*


O tempo passa. A vida passa. Mudam os sonhos. Renova-se a esperança. Por mais definitivas que se apresentem as realidades, a dinâmica do existir sempre arma peças capazes de surpreender; mesmo aqueles mais resistentes às transformações vêem-se, em muitos casos, obrigados a admitir a presença do novo. É inegável, porém, que a passagem de antigos a novos paradigmas geralmente cause incômodo e estranheza. Afinal, embora chamados, nem todos se revelam, de fato, preparados para enfrentar o esplendor da verdade, que sobrepõe às trevas da limitação humana a luz da incomensurável sabedoria divina. Para muitos, a noite ainda é longa, árdua, desesperadora... No entanto, escondida por entre as sombras fugazes da existência, conserva-se uma chama viva, capaz de restabelecer o ânimo e fortalecer os passos.

A passagem dos tempos é algo notado por astrônomos, poetas, filósofos e por toda uma gama de estudiosos ao longo da história. Heráclito (séculos VI e V a.C.), filósofo grego inserido no contexto pré-socrático, parte do princípio de que tudo é movimento, nada pode permanecer estático. Diz-se que esse pensador fora o primeiro a problematizar o fluir das coisas naturais. Para ele, tudo se desenvolve em constante alteração; a própria vida humana se renova com ordenada freqüência sem, com isso, deixar de ser a mesma (de fato, a Biologia veio a descobrir, muito mais tarde, a constante renovação celular). Ainda para esse pensador de Éfeso, o jogo dos fatos contrários – noite e dia, luz e trevas, frio e calor etc. – gera tudo o que se conhece. Nessa visão, Deus (deus) seria nada mais que o suprassumo efeito desse processo. Nascesse Heráclito seis séculos depois e, talvez, fosse interpelado por uma luz capaz de reluzir na madrugada e resplandecer ad eternum.

Em A República, o filósofo Platão (séculos V e IV a.C.) descreve, por meio de um conhecido diálogo entre Sócrates e Glauco, inspirador da chamada “Alegoria da caverna”, a estória de habitantes cativos em um espaço lúgubre, no qual as únicas imagens possíveis advinham de sombras refletidas nas paredes de uma caverna. Nessa representação metafórica, um dos cativos consegue livrar-se das correntes que o prendiam e deparar-se com a claridade externa ao lugar asqueroso em que sempre viveu. Por não ser acostumado à tão intensa luminosidade, demora a compreender as novas formas. Em um misto de encanto e perplexidade, volta ao lugar de origem e descreve o que vira aos seus semelhantes. Tido como louco, acaba assassinado pelos que nunca puderam vislumbrar qualquer horizonte. Antiga, conquanto não ultrapassada, essa alegoria continua atual; seus fundamentos transcendem a imaginação platônica e alicerçam o discurso de boa parte da “sociedade moderna”.

Ainda no tocante às reflexões sobre o efêmero e o eterno, a poetisa Cecília Meireles (1901-1964) é, na literatura brasileira, uma fortíssima referência. Essa escritora, marcada por perdas familiares no início da infância, compõe uma série de poemas que retratam a fugacidade da vida. Em Retrato, um de seus mais conhecidos textos, pergunta perplexa: “Em que espelho ficou perdida a minha face?”, problematizando o súbito passar do tempo. Assim como no âmbito poético, o mundo concreto também se indaga sobre as constantes transformações por que passa. Geralmente, quando não se encontra resposta objetiva, mesmo sendo os questionamentos altamente subjetivos, tende-se à descrença absoluta: há, desse modo, o tenebroso retorno à “caverna”.

Na contramão dessa postura, a Páscoa cristã concede à humanidade embotada o direto de voltar a enxergar. Quando o tétrico cenário parece definitivamente consumado, eis que surge o limiar da esperança: ao descer à mansão dos obscuros, Cristo os convoca a reintegrar-se ao reinado dos justos. Nesse ínterim, por sua vez, há que se ressaltar a figura sobre a qual recaem todas as angústias, todos os sofrimentos e sonhos da Igreja: Maria, a Virgem de Nazaré. No sábado anterior à maior dentre as noites, ela não é apenas a mãe das dores, prefiguração das sofredoras do mundo; é, sobretudo, o símbolo maior dos que confiam na intervenção do Alto. Na fé de Maria, a Igreja vê o argumento das trevas perder a força e o triunfo do Ressuscitado despontar no horizonte. Com ela, canta a Mãe Igreja, proclamando a grande verdade:

“Exulte o céu, e os anjos triunfantes,
mensageiros de Deus, desçam cantando;
façam soar trombetas fulgurantes,
a vitória de um Rei anunciando!

Só tu noite feliz, soubeste a hora
em que o Cristo da morte ressurgia;
e é por isso que de ti foi escrito:
A noite será luz para o meu dia!”

___________________________________________
* É lingüista e professor de Língua Portuguesa.
eduardoredacao@gmail.com